Por que estão exorcizando o dízimo?
Na atualidade, um equivocado movimento extremista
insere o dízimo no mesmo bojo das falaciosas doutrinas da Teologia da
Prosperidade
A prática do dízimo sempre foi comum na Igreja Presbiteriana, na Igreja
Batista, na Assembleia de Deus e em outras igrejas tradicionais. Mas
há, na atualidade, um equivocado movimento extremista que insere o
dízimo no mesmo bojo das falaciosas doutrinas da Teologia da
Prosperidade. Não sou líder de igreja, a despeito de ser pastor. Não sou
sustentado por dízimos dos fiéis. Ademais, a minha posição contrária à
Teologia da Prosperidade já é bastante conhecida de quem costuma ler os
meus textos. Não apoio as práticas que igrejas pseudocristãs e
pseudopentecostais utilizam para literalmente arrancar o dinheiro dos
fiéis. E, por todas essas razões, posso falar à vontade a respeito do
dízimo.
Penso que devemos, sim, nos opor aos falsos evangelhos, contrários à
salvação pela Graça (Gl 1.8; 2 Co 11.3,4), mas sem exagero. Afinal, a
contribuição financeira espontânea para a obra do Senhor, inclusive com o
dízimo, nunca foi considerada uma heresia nas igrejas. Por que agora
seria ela pecaminosa e reprovável? Antes do surgimento da Teologia da
Prosperidade, não havia tanto combate ao dízimo. Mas muita gente começou
a atacá-lo, como se ele fosse também parte integrante do aludido desvio
teológico, depois que aumentou, e muito, o mercantilismo da fé (2 Co
2.17). Está crescendo, e muito, o número dos inimigos do dízimo.
Curiosamente, boa parte destes (sem generalizar) é formada por
desigrejadores, desigrejados, desviados, agnósticos, ateus, pessoas
revoltadas que se opõem a pastores, igrejas, Ceia do Senhor, inspiração
plenária da Bíblia.
Tenho observado que cristãos equilibrados, sadios de coração, atuantes
na obra do Senhor, não são dados a movimentos revolucionários que querem
“reinventar a roda”, derrubar o “sistema” e exorcizar doutrinas,
ordenanças e práticas antigas das igrejas. Concordo que não há uma
grande quantidade de versículos a respeito do dízimo no Novo Testamento.
Mas também não existe uma passagem sequer desaprovando essa forma de
contribuição. E o dízimo tem a seu favor o fato de o Senhor Jesus ter se
referido a ele como um dever, a despeito de ser menos importante que o
juízo, a misericórdia e a fé (Mt 23.23).
Embora tenha sido instituído nos tempos do Antigo Testamento e adotado
como meio de sustento dos levitas que serviam no Templo, o dízimo tem a
sua importância nos tempos neotestamentários. Assim como no Templo os
levitas precisavam do dízimo e das ofertas alçadas para manterem o lugar
de culto a Deus e se manterem (Ml 3.8-10), os ministros e templos de
hoje — e a obra de Deus, de maneira geral — precisam de recursos para a
sua manutenção. Por que o dízimo não pode ser usado hoje como um meio de
arrecadação de dinheiro em prol da obra do Senhor? Não podem as igrejas
pedir o dízimo dos fiéis, desde que não haja barganha e imposição? O
que as impede de estimular os servos de Deus a contribuírem mensalmente
com 10% dos seus rendimentos?
Muitos têm interpretado mal o fato de o Senhor Jesus ter inaugurado o
tempo da Graça (Jo 1.17), ao pensarem que, com isso, Ele aboliu tudo o
que fora dado a Moisés. Não! A obra vicária do Senhor serve eficazmente
para não mais dependermos da Lei para a salvação, a qual se dá única e
exclusivamente por meio da Graça (Ef 2.8-10; Tt 2.11). Entretanto, nem
todos os mandamentos e princípios do tempo do Antigo Testamento foram
revogados ou desprezados pelo nosso Senhor, como se vê principalmente em
Mateus 5 a 7.
Em Mateus 5.27,28, vemos — por exemplo — que o Senhor não revogou o
mandamento “Não adulterarás”, mas o modificou, tornando-o mais
abrangente, passando a considerar o aspecto psicológico. O Senhor Jesus,
definitivamente, não revogou toda a Lei (Rm 15.4). Falando
especificamente do Decálogo (que é apenas um resumo da Lei), nove dos
dez mandamentos foram repetidos no Novo Testamento de maneira ampliada
ou modificada. A única exceção é quanto à observância do sábado (Mc
2.24-28; Gl 4.8-11). Considero exagerado, extremado, esse movimento que
visa a exorcizar e esconjurar o dízimo, com base no argumento de que ele
pertence à Lei.
Ora, quais são as implicações negativas de sua observância quanto à
salvação pela Graça? Contribuir com o dízimo impede alguém de ser salvo?
Quem dá o dízimo faz isso para obter a salvação pelas obras? Tudo o que
temos, nesta vida, pertence ao Senhor (1 Co 4.7; Tg 1.17; Sl 24.1; Êx
13.2), inclusive o dinheiro (Ag 2.8,9). A Ele não pertence apenas 10% do
que possuímos, e sim tudo (100%). E o Senhor tem permitido que
administremos o que nos tem dado pela Graça (1 Co 4.1; 6.19,20),
inclusive a nossa renda. Uns são mais generosos, e outros, menos. Mas,
que mal existe em alguém contribuir mensalmente com o dízimo, para
manutenção da obra do Senhor? Antibíblica e anticristã essa prática não
é, a menos que somem a ela as técnicas usadas pelos propagadores da
falaciosa Teologia da Prosperidade.
Conquanto o texto de Mateus 23.23 apresente uma contundente mensagem do
Senhor Jesus aos fariseus, vejo nele incentivo à prática do dízimo
aplicável aos dias de hoje. Caso contrário, nada do que está escrito em
Mateus 23 poderia ser aplicado hodiernamente. Muitos pastores, por
exemplo, baseiam-se no versículo 28 para pregar contra a hipocrisia:
“exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais
cheios de hipocrisia e iniquidade”. Por que não podemos usar o versículo
23 para estimular a contribuição do dízimo? O dízimo e as ofertas para a
obra do Senhor podem ser defendidos com base em várias passagens
neotestamentárias, como Hebreus 7.1-10; Romanos 4.11,12,16; Gálatas 3.9;
João 8.39; Atos 4.32; 2 Coríntios 8.1-9; 9.6ss; Filipenses 4.10-19,
etc. Mas a passagem mais enfática quanto ao dízimo é mesmo Mateus 23.23.
Ela contém um grande ensinamento: o de que devemos priorizar, ao
contrário dos fariseus, a justiça, a misericórdia e a fé, mas sem nos
esquecermos de que devemos contribuir para a obra do Senhor: “deveis,
porém, fazer essas coisas e não omitir aquelas”.
Opositores do dízimo dizem que o texto de Mateus 23.23 não se aplica a
nós porque na cruz toda a Lei foi anulada e tudo o que Ele disse antes
da sua crucificação baseara-se na Lei. Bem, se não podemos receber como
verdade neotestamentária o que o Senhor disse antes de sua morte e sua
ressurreição, a igreja de Atos dos Apóstolos baseava os seus
ensinamentos em quê? É evidente que ela seguia as verdades transmitidas
por Jesus no período em que andou na terra (o que inclui Mateus 5-7,
23-25, João 13-17, etc.), antes de morrer e ressuscitar, e antes da sua
ascensão (At 1.1-9). É claro que, no tempo da Graça, a contribuição
financeira deve ser, antes de tudo, voluntária, generosa, altruísta, em
gratidão a Deus por tudo quanto dEle temos recebido (Tg 1.16).
Por outro lado, não há necessidade de exorcizar a prática do dízimo,
como se ela pertencesse ao pacote herético da Teologia da Prosperidade, a
qual é perniciosa em razão da intenção de seus adeptos: “por avareza,
farão de vós negócio com palavras fingidas” (2 Pe 2.3). Contribuir com o
dízimo mensalmente, em gratidão a Deus e pensando no bem da obra dEle,
não é, de modo algum, barganhar ou ser amante do dinheiro (1 Tm 6.10). A
Bíblia não apoia a prática de contribuir financeiramente com segundas
intenções. A despeito disso, tenho certeza de que o Senhor abençoa a
quem contribui com generosidade, alegria, como se vê claramente em
passagens como 2 Coríntios 9.6-15 e Malaquias 3.8-10.
Diante do exposto, a impressão que tenho é que os oponentes do dízimo
agem assim muito mais porque não desejam contribuir do que para manter a
pureza do Evangelho e protegê-lo da Teologia da Prosperidade.
Lembremo-nos de que o nosso julgamento deve ocorrer de acordo com a reta
justiça, e não mediante generalizações e “caça às bruxas” (Jo 7.24).
Ciro Sanches Zibordi
Fonte: cpadnews.
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